18 novembro, 2012
17 novembro, 2012
Quando fui chuva
Onde a vida me cabia apertada
Em um canto qualquer acomodei
Minha dança os meus traços de chuva
E o que é estar em paz
Pra ser minha e assim ser tua
Quando já não procurava mais
Pude enfim, nos olhos teus vestidos d'água
Me atirar tranqüila daqui
Lavar os degraus, os sonhos e as calçadas
E assim no teu corpo eu fui chuva
Jeito bom de se encontrar
E assim no teu gosto eu fui chuva
Jeito bom de se deixar viver
Nada do que eu fui me veste agora
Sou toda gota, que escorre livre pelo rosto
E só sossega quando encontra a tua boca
E mesmo que em ti me perca
Nunca mais serei aquela
Que se fez seca
Vendo a vida passar pela janela
Quando já não procurava mais
Pude enfim, nos olhos teus vestidos d'água
Me atirar tranquila daqui
Lavar os degraus, os sonhos e as calçadas
Jeito bom de se encontrar
E assim no teu gosto eu fui chuva
Jeito bom de se deixar viver"
Gadú
01 novembro, 2012
Nosso Luto
EDUCAÇÃO
É com profundo pesar que anunciamos o falecimento da Educação. O princípio de todos os princípios foi vítima da falta de investimentos. Sim, mas também da nossa indesculpável falta de tempo para os filhos da evasão escolar, da negligência familiar, das prioridades equivocadas e da falta de preocupação com o futuro de cada um e de todos nós.
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EMPREGO
Consternados, comunicamos o falecimento de nosso querido emprego, devido ao fracasso de políticas sociais e da falta de confiança para investir no enorme potencial do nosso país. Sentiremos muito a sua falta.
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FAMÍLIA
É nosso doloroso dever informar o falecimento da família. Instituição querida que se foi devido aos maus-tratos, ao alcoolismo, ao abuso sexual, à falta de planejamento familiar, ao trabalho e à exploração infantil e à recorrente falta de carinho, apoio e respeito ao próximo.
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DIGNIDADE
Lamentamos comunicar o falecimento da dignidade, fruto da dificuldade que homens, mulheres e crianças do nosso país encontram para garantir oportunidades e condições mínimas para levar uma vida decente.
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INFÂNCIA
Lamentamos a partida da nossa querida infância. Um período tão importante de nossas vidas que, infelizmente, se foi graças à exploração e à necessidade do trabalho infantil, ao desrespeito ao estatudo da criança e do adolescente, ao erro de não se viver cada coisa ao seu tempo e aos inúmeros "cresce menino!" ouvidos Brasil afora. Sentiremos saudades da infância. Mais ainda por aqueles que, por não a conhecerem, não poderão sentir.
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RESPONSABILIDADE
Informamos a todos, com muita dor, o falecimento da responsabilidade; vitimada pela inconsequência daqueles que mesmo cientes de seus deveres, deixam de cumprí-los e pela classe média, que financia o tráfico por meio do consumo de drogas, uma diversão hipócrita que não tem a menor graça.
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CIDADANIA
É com dor e consternação que informamos a todos o falecimento de nossa muito amada cidadania. Fundamento básico da convivência social, a cidadania foi vítima de violações de leis e direitos humanos e até mesmo da nossa atitude, cada vez que nos omitimos, preferindo reclamar que "ninguém faz nada" a levantar, tomar voz e participar ativamente da construção da nossa sociedade.
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TOLERÂNCIA
Comunicamos o falecimento da nossa querida tolerância, causado pela arrogância, pela prepotência, pelo preconceito, explícito ou velado, que todos manifestamos em algum momento de nossas vidas. Em homenagem a essa triste partida, lembremos que o princípio de que uns são melhores do que os outros só nos torna piores.
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MORADIA
Informamos com pesar o seu falecimento. A nossa querida moradia se foi por falta de planejamento público, pela incapacidade de lidar corretamente com a favelização e pela dificuldade em garantir que comunidades carentes tenham acesso à luz, ao saneamento básico, enfim, às condições propícias para o estabelecimento digno de uma base familiar.
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RESPEITO
É com extremo pesar que comunicamos o falecimento do respeito, causado por carros avançando os sinais, pessoas jogando lixo nas ruas, lugares não cedidos nos ônibus, carteiradas e por todas as situações em que esquecemos que o nosso direito termina onde começa o do outro.
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HONESTIDADE
Com profunda dor, informamos o falecimento da honestidade. Um princípio que se foi devido à sonegação de impostos, às compras de produtos piratas, às "cervejinhas" deixadas nas blitz e, principalmente, devido à nossa equivocada mania de chamar corrupção em pequena escala de "jeitinho".
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JUSTIÇA
Lamentamos a partida de nossa amada justiça, causada pelo corporativismo, pelos pré-julgamentos e preconceitos, pela arrogância, pela troca de favores, pela corrupção e, principalmente, pela impunidade.
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SOLIDARIEDADE
É com extremo pesar que comunicamos a todos o falecimento de nossa querida solidariedade, vítima do individualismo exacerbado, do egoísmo e da nossa crescente incapacidade de levantar uma mão que seja em prol de uma sociedade mais justa e igualitária.
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CIVILIDADE
Consternados, informamos o falecimento da civilidade. Muitas foram as causas desse triste óbito: a nossa mania de levar vantagem em tudo, as filas que desrespeitamos, as brigas no trânsito e a nossa insistência em escolher, por conveniência, as leis a serem respeitadas. O país sentirá saudades.
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AUTORIDADE
Comunicamos, consternados, o falecimento da autoridade. Mais uma vítima dos progressivos desmandos e abusos de poder, da corrupção, do descaso e do mau exemplo, que geraram desconfiança e fizeram com que a palavra autoridade se tornasse sinônimo de medo e de omissão, e não mais de respeito e reverência.
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BOM SENSO
Comunicamos o lamentável falecimento do bom senso. Mais uma vítima dos incontáveis equívocos na definição de prioridades, da falta de diálogo e das inúmeras coisas que deixamos de fazer, ou trocamos por outras absolutamente irrelevantes, simplesmente por não pararmos uma minuto sequer para refletir sobre o que realmente importa.
[autoria desconhecida]
**Retirado do blog Mundo da Gislene
15 outubro, 2012
Amigos invisíveis
Os amigos não precisam estar ao lado para justificar a lealdade. Mandar relatórios do que estão fazendo para mostrar preocupação.
Os amigos são para toda a vida, ainda que não estejam conosco a vida inteira.
Temos o costume de confundir amizade com onipresença e exigimos que as pessoas estejam sempre por perto, de plantão. Amizade não é dependência, submissão. Não se têm amigos para concordar na íntegra, mas para revisar os rascunhos e duvidar da letra. É independência, é respeito, é pedir uma opinião que não seja igual, uma experiência diferente.
Se o amigo desaparece por semanas, imediatamente se conclui que ele ficou chateado por alguma coisa. Diante de ausências mais longas e severas, cobramos telefonemas e visitas. E já se está falando mal dele por falta de notícias. Logo dele que nunca fez nada de errado!
O que é mais importante: a proximidade física ou afetiva? A proximidade física nem sempre é afetiva. Amigo pode ser um álibi ou cúmplice ou um bajulador ou um oportunista, ambicionando interesses que não o da simples troca e convívio.
Amigo mesmo demora a ser descoberto. É a permanência de seus conselhos e apoio que dirão de sua perenidade.
Amigo mesmo modifica a nossa história, chega a nos combater pela verdade e discernimento, supera condicionamentos e conluios. São capazes de brigar com a gente pelo nosso bem-estar.
Assim como há os amigos imaginários da infância, há os amigos invisíveis na maturidade. Aqueles que não estão perto podem estar dentro. Tenho amigos que nunca mais vi, que nunca mais recebi novidades e os valorizo com o frescor de um encontro recente. Não vou mentir a eles "vamos nos ligar?" num esbarrão de rua. Muito menos dar desculpas esfarrapadas ao distanciamento.
Eles me ajudaram e não necessitam atualizar o cadastro para que sejam lembrados. Ou passar em casa todo o final de semana e me convidar para ser padrinho de casamento, dos filhos, dos netos, dos bisnetos. Caso encontrá-los, haverá a empatia da primeira vez, a empatia da última vez, a empatia incessante de identificação.
Amigos me salvaram da fossa, amigos me salvaram das drogas, amigos me salvaram da inveja, amigos me salvaram da precipitação, amigos me salvaram das brigas, amigos me salvaram de mim.
Os amigos são próprios de fases: da rua, do Ensino Fundamental, do Ensino Médio, da faculdade, do futebol, da poesia, do emprego, da dança, dos cursos de inglês, da capoeira, da academia. Significativos em cada etapa de formação. Não estão em nossa frente diariamente, mas estão em nossa personalidade, determinando, de modo imperceptível, as nossas atitudes.
Quantas juras foram feitas em bares a amigos, bêbados e trôpegos?
Amigo é o que fica depois da ressaca. É glicose no sangue. A serenidade.
[Fabrício Carpinejar, "Os amigos invisíveis" crônica do livro Canalha!, Bertrand Brasil]
14 outubro, 2012
01 outubro, 2012
Desistir
"Saber desistir.
Abandonar ou não abandonar — esta é muitas vezes a questão para um jogador.
A arte de abandonar não é ensinada a ninguém.
E está longe de ser rara a situação angustiosa
em que devo decidir se há algum sentido em prosseguir jogando.
Serei capaz de abandonar nobremente?
Ou sou daqueles que prosseguem teimosamente esperando que aconteça alguma coisa?"
Clarice Lispector in, Um Sopro de Vida
Clarice Lispector in, Um Sopro de Vida
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