30 março, 2011

Esse Mistério



Estive pensando nesse mistério que faz com que a vida da gente se encante tanto por outra vida. E sinta vontade de escrever poemas. Garimpar estrelas. Deixar florir pelo corpo os sorrisos que nascem no coração. Nesse mistério que nos faz olhar a mesma imagem inúmeras vezes, sem cansaço, seja ela feita de papel ou de memória. Que nos faz respirar feliz que nem folha orvalhada. Querer caber, com frequência, no mesmo metro quadrado onde a tal vida está. Cantarolar pela rua aquela canção que a gente não tinha a mínima ideia de que lembrava.

Estive pensando nesse mistério que faz com que a vida da gente encontre essa vida na multidão planetária de bilhões de outras. E sem saber que ela existia, perceba ao encontrá-la que sentia saudade dela antes de conhecê-la. Estive pensando nesse mistério que faz com que aquela vida que acaba de encontrar a nossa nos deixe com a impressão de estar no nosso caminho desde sempre, como se fosse um sol que esteve o tempo todo ali e a gente somente não o ouvia cantar. Nesse mistério que nos faz trocar buquês dos olhares mais cuidadosos. Que nos faz querer cultivar jardins, lado a lado. Nesse mistério que faz com que a nossa vida queira um bem tão grande à outra vida, que vai ver que isso já é uma prece e a gente nem desconfia.

Estive pensando nesse mistério lindo que você é para alguém e alguém é para você ou que ainda serão um para o outro. Nessa oportunidade preciosa dos encontros que nos fazem crescer no amor com o tempero bom da ludicidade. Nesse clima de passeio noturno em pracinha de cidade pequena. Nessa paz que convida o coração pra recostar e repousar cansaços. Nesse lume capaz de clarear um quarteirão inteirinho da alma. Nesse abraço com braços que começam dentro da gente. Nessa vontade de deixar o mundo todo pra depois só para saborear cada milímetro do momento embrulhado pra presente.

Estive pensando nesse mistério que não consigo desvendar. Nem tento.



Ana Jácomo

28 março, 2011


- Quero te dizer uma coisa que talvez não faça muito sentido. Mas devo dizer para que um dia você possa se lembrar, e talvez isso te ajude a se sentir melhor. Em um certo momento da sua vida, provavelmente quando a maior parte dela já tiver passado…você vai abrir seus olhos e ver quem você realmente é…especialmente por tudo que a tornou tão diferente de todos os horríveis normais. E você vai dizer para você mesma…
”Mas eu sou essa pessoa”. 
E nessa declaração, essa correção, haverá um tipo de amor.
- Estou com muito medo.

- Todos estamos.














Phoebe no País das Maravilhas (2008).

Alindai-vos, bailai, desatai a rir.




Quando somos muito fortes, – quem recua?
muito alegres, – quem cai no ridículo?
Quando somos muito maus, – que fariam de nós?

Alindai-vos, bailai, desatai a rir.
- Eu nunca poderei atirar o Amor pela janela.

Rimbaud




De tarde um homem tem esperanças.
Está sozinho, possui um banco.
De tarde um homem sorri.
Se eu me sentasse a seu lado
Saberia de seus mistérios
Ouviria até sua respiração leve.
Se eu me sentasse a seu lado
Descobriria o sinistro
Ou doce alento de vida
Que move suas pernas e braços.


Mas, ah! eu não vou perturbar a paz que ele depôs na praça, quieto.



Manoel de Barros

A memória do corpo



Minha alma é um bolso onde guardo minhas memórias vivas. 
Memórias vivas são aquelas que continuam presentes no corpo. 
Uma vez lembradas, o corpo ri, chora, comove-se, dança… 



Rubem Alves

27 março, 2011

Imperativo

E se eu puder fazer por ti o que ninguém jamais fez por mim












Eu faço






Tico Sta Cruz

Armadilhas



“Vamos combinar que muitas vezes não há segredo algum, inimigo algum, interrogação alguma, nenhuma entidade obsessora além da nossa autosabotagem. A gente sabe que esticar a corda costuma encolher o coração, mas a gente estica. A gente sabe que nos trechos de inverno é necessário se agasalhar, mas a gente se expõe à friagem. A gente sabe que não pode mudar ninguém, que só podemos promover mudanças na nossa própria vida, mas a gente age como se esquecesse completamente dessa percepção tão sincera. A gente lembra os lugares de dor mais aguda onde já esteve e como foi difícil sair deles, mas, diante de circunstâncias de cheiro familiar, a gente teima em não aceitar o óbvio, em não se render ao fluxo, em não respeitar o próprio cansaço.

Eu pensava em todas essas armadilhas enquanto caminhava na Lagoa, um dia de céu de cara amarrada, um tiquinho de sol muito lá longe, tudo bem parecido comigo naquela manhã. Eu me perguntei por que quando mais precisamos de nós mesmos, geralmente mais nos faltamos. Que estranha escolha é essa que faz a gente alimentar os abismos quando mais precisa valorizar as próprias asas. Como conseguimos gostar tanto dos outros e tão pouco de nós. Eu me perguntei quando, depois de tanto tempo na escola, eu realmente conseguirei aprender, na prática, que o amor começa em casa. Por que, tantas vezes, quando estou mais perto de mim, mais eu me afasto. Eu me perguntei se viver precisa, de fato, ser tão trabalhoso assim ou se é a gente que complica, e muito. Como conseguimos ser tão vulneráveis, ao mesmo tempo que tão fortes. Somos humanos, é claro, mas ser humano é ser divino também.

Eu não tenho muitas respostas e as que tenho são impermanentes, como os invernos, os dias de céu de cara amarrada, os lugares de dor, os abismos todos, o bom uso das asas, os fios desencapados, as medidas e as desmedidas. Tudo passa, o que queremos e o que não queremos que passe, a tristeza e o alívio coabitam no espaço desta certeza. Eu não tenho muitas respostas. O que eu tenho é fé. A lembrança de que as perguntas mudam. Um modo de acreditar que os tiquinhos de sol possam sorrir o suficiente para desarmar a sisudez nublada de alguns céus. E uma vontade bonita, toda minha, de crescer.”
 




Não importa o canal



A cura não vem sozinha. A gente põe a cura nas coisas: no rio, no mar, na cachoeira, na amizade, no sono... Caminhando, passos tímidos ainda que sejam, mas totalmente em busca de um resgate de mim mesma. Mesmo que a tristeza faça uma visita vezenquando, nunca vivi um encontro tão bonito (e dolorido) comigo. E eu que achava que me conhecia...



Marla de Queiroz

26 março, 2011

Economizar amor é avareza



Se você ama, diga que ama. Não tem essa de não precisar dizer porque o outro já sabe. Se sabe, maravilha… mas esse é um conhecimento que nunca está concluído. Pede inúmeras e ternas atualizações. Economizar amor é avareza. Coisa de quem funciona na frequência da escassez. De quem tem medo de gastar sentimento e lhe faltar depois. É terrível viver contando moedinhas de afeto. Há amor suficiente no universo. Pra todo mundo. Não perdemos quando damos: ganhamos junto. Quanto mais a gente faz o amor circular, mais amor a gente tem. Não é lorota. Basta sentir nas interações do dia-a-dia, esse nosso caderno de exercícios.

Se você ama, diga que ama. A gente pode sentir que é amado, mas sempre gosta de ouvir e ouvir e ouvir. É música de qualidade. Tão melodiosa, que muitas vezes, mesmo sem conseguir externar, sentimos uma vontade imensa de pedir: diz de novo? Dizer não dói, não arranca pedaço, requer poucas palavras e pode caber no intervalo entre uma inspiração e outra, sem brecha para se encontrar esconderijo na justificativa de falta de tempo. Sim, dizer, em alguns casos, pode exigir entendimentos prévios com o orgulho, com a bobagem do só-digo-se-o-outro-disser, com a coragem de dissolver uma camada e outra dessas defesas que a gente cria ao longo do caminho e quando percebe mais parecem uma muralha. Essas coisas que, no fim das contas, só servem para nos afastar da vida. De nós mesmos. Do amor.

Se você ama, diga que ama. Diga o seu conforto por saber que aquela vida e a sua vida se olham amorosamente e têm um lugar de encontro. Diga a sua gratidão. O seu contentamento. A festa que acontece em você toda vez que lembra que o outro existe. E se for muito difícil dizer com palavras, diga de outras maneiras que também possam ser ouvidas. Prepare surpresas. Borde delicadezas no tecido às vezes áspero das horas. Reinaugure gestos de companheirismo. Mas não deixe para depois. Depois é um tempo sempre duvidoso. Depois é distante daqui. Depois é sei lá…



Ana Jácomo

25 março, 2011

Mesmo sabendo onde vai dar...segue.




"E assim, aos poucos, ela se esquece dos socos, pontapés, golpes baixos que a vida lhe deu, lhe dará. A moça - que não era Capitu, mas também tem olhos de ressaca - levanta e segue em frente. Não por ser forte, e sim pelo contrário: por saber que é fraca o bastante para não conseguir ter ódio no seu coração, na sua alma, na sua essência. E ama, sabendo que vai chorar muitas vezes ainda. Afinal, foi chorando que ela, você e todos os outros, vieram ao mundo."




Machado de Assis in:
Dom Casmurro

24 março, 2011

Não era minha vez




Te amei e amei minha fantasia
amei de novo e amei nossa estreia
amei meu próprio amor e amei a tua audácia
te amei muito e pouco e comovidamente
amei a história construída, os ritos e os porquês
te amei no invisível e no inaudível
amei no crível e no incrível
amei ser dona e te amei freguês
te amei e amei a farsa arquitetada
amei o nosso caso e amei a nossa casa
amei a mim, amei a ti, parti-me ao meio
te amei no profundo, no raso e com atraso
não era tua hora, não era minha vez...











Não passa nunca




Eu achei que quando passasse o tempo,

eu achei que quando eu finalmente te visse 

tão livre, tão forte e tão indiferente, 

eu achei que quando sentisse o fim, 

eu achei que passaria. 

Não passa nunca, 

mas quase passa todos os dias.

Tati Bernardi

Poeminha Amoroso



Este é um poema de amor 
tão meigo, tão terno, tão teu... 
É uma oferenda aos teus momentos 
de luta e de brisa e de céu... 
E eu, 
quero te servir a poesia 
numa concha azul do mar 
ou numa cesta de flores do campo. 
Talvez tu possas entender o meu amor. 
Mas se isso não acontecer, 
não importa. 
Já está declarado e estampado 
nas linhas e entrelinhas 
deste pequeno poema, 
o verso; 
o tão famoso e inesperado verso que 
te deixará pasmo, surpreso, perplexo... 
eu te amo, perdoa-me, eu te amo...

20 março, 2011



"A palavra amor anda vazia. 

Não tem gente dentro dela."



Manoel de Barros

Questão de pontuação


Todo mundo aceita que ao homem
cabe pontuar a própria vida:
que viva em ponto de exclamação
(dizem: tem alma dionisíaca);


viva em ponto de interrogação
(foi filosofia, ora é poesia);
viva equilibrando-se entre vírgulas
e sem pontuação (na política):


o homem só não aceita do homem
que use a só pontuação fatal:
que use, na frase que ele vive
o inevitável ponto final.





João Cabral de Melo Neto

Amor de todo mundo




No inverno te proteger
no verão sair pra pescar
no outono te conhecer
primavera poder gostar
e no estio me derreter
pra na chuva dançar e andar junto!


Amor de Índio
Beto Guedes e Ronaldo Bastos

Ele chegou!!!



Chegou hoje e ficará até dia 21/06.
Aproveitando o clima de renovação 
vou jogar as folhas velhas fora. 
Que venham as novas! 
Tô precisando. Afinal, quem não está?


Que você tenha um outono feliz!!!

O Mau elemento

Eu olho pra sua tatuagem e pro tamanho do seu braço e pros calos da sua mão e acho que vai dar tudo certo. Me encho de esperança e nada. Vem você e me trata tão bem. Estraga tudo. Mania de ser bom moço, coisa chata.
Eu nunca mais quero ouvir que você só tem olhos pra mim, ok? E nem o quanto você é bom filho. Muito menos o quanto você ama crianças. E trate de parar com essa mania horrível de largar seus amigos quando eu ligo. Colabora, pô. Tá tão fácil me ganhar, basta fazer tudo pra me perder.
E lá vem ele dizer que meu cabelo sujo tem cheiro bom. E que já que eu não liguei e não atendi, ele foi dormir. E que segurar minha mão já basta. E que ele quer conhecer minha mãe. E que viajar sem mim é um final de semana nulo. E que tudo bem se eu só quiser ficar lendo e não abrir a boca.
Com tanto potencial pra acabar com a minha vida, sabe o que ele quer? Me fazer feliz. Olha que desgraça. O moço quer me fazer feliz. E acabar com a maravilhosa sensação de ser miserável. E tirar de mim a única coisa que sei fazer direito nessa vida que é sofrer. Anos de aprimoramento e ele quer mudar todo o esquema. O moço quer me fazer feliz. Veja se pode.
E aí passa a maior gostosa na rua e ele lá, idolatrando meu nariz. E aí o celular dele toca e ele, putz, perdeu a ligação porque demorou trinta mil horas pra desvencilhar os dedos do meu cabelo. Com tanto potencial pra me dar uns tapas, o moço adora me fazer carinho com a ponta dos dedos.
Não dá, assim não dá. Deveria ter cadeia pra esse tipo de elemento daninho. Pior é que vicia. Não é que acordei me achando hoje? Agora neguinho me trata mal e eu não deixo. Agora neguinho quer me judiar e eu mando pastar. Dei de achar que mereço ser amada. Veja se pode. Trinta anos servindo de capacho, feliz da vida, e aí chega um desavisado com a coxa mais incrível do país e muda tudo. Até assoviando eu tô agora. Que desgraça.
Ontem quase, quase, quase ele me tratou mal. Foi por muito pouco. Eu senti que a coisa tava vindo. Cruzei os dedos. Cheguei a implorar ao acaso. Vai, meu filho. Só um pouquinho. Me xinga, vai. Me dá uma apertada mais forte no braço. Fala de outra mulher. Atende algum amigo retardado bem na hora que eu tava falando dos meus medos. Manda eu calar a boca. Sei lá. Faz alguma coisa homem!
E era piada. Era piadinha. Ele fez que tava bravo. E acabou. Já veio com o papo chato de que me ama e começou a melação de novo. Eita homem pra me beijar. Coisa chata.
Minha mãe deveria me prender em casa, me proteger, sei lá. Onde já se viu andar com um homem desses. O homem me busca todas as vezes, me espera na porta, abre a porta do carro. Isso quando não me suspende no ar e fala 456 elogios em menos de cinco segundos. Pra piorar, ele ainda tem o pior dos defeitos da humanidade: ele esqueceu a ex namorada. Depois de trinta anos me relacionando só com homens obcecados por amores antigos, agora me aparece um obcecado por mim que nem lembra direito o nome da ex. Fala se tão de sacanagem comigo ou não? Como é que eu vou sofrer numa situação dessas? Como? Me diz?
Durmo que é uma maravilha. A pele está incrível. A fome voltou. A vida tá de uma chatice ímpar. Alguém pode, por favor, me ajudar? Existe terapia pra tentar ser infeliz? Outro dia até me belisquei pra sofrer um pouquinho. Mas o desgraçado correu pra assoprar e dar beijinho.


Saudosa Amnésia



Memória é coisa recente.
Até ontem, quem lembrava?
A coisa veio antes,
ou, antes, foi a palavra?
Ao perder a lembrança,
grande coisa não se perde.
Nuvens, são sempre brancas.
O mar? Continua verde.

Tratado Geral das grandezas do Ínfimo



A poesia está guardada nas palavras - é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre
as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado e chorei.
Sou fraco para elogios.

18 março, 2011

Você tem medo de dizer eu te amo?

Bastava...




Bastava o perfume que os cabelos deixavam nos travesseiros e aquele beijo trocado em plena tarde de segunda feira agitada. Bastava aquela conversa sobre um assunto sem nexo no café da manhã e as gargalhadas do ser amado vendo tv em plena madrugada. Bastava estarem abraçados e ainda deitados num dia preguiçoso e implicarem antes de um passeio por causa de uma saia minúscula. Bastava mesmo que fosse uma briguinha antes de começar o dia e você ficar pensando o dia todo em alguma forma de reconciliação. Bastava que ele chegasse, mesmo esquecendo das compras da semana e que ela te perguntasse a cada minuto se você a amava. São nessas pequenas horas que se descobre ter sido feliz, mas isso é coisa que demora uma vida toda pra se perceber.



Cáh Morandi

17 março, 2011

Essa tal culpa...



Troço perigoso, a culpa. Faz estrago à beça. Pode até aniquilar uma existência inteira. A vida fica toda encolhidinha. A alma deixa de cantar. As veias por onde o amor circula se tornam obstruídas. É capaz de fazer adoecer o corpo que a gente vê e aquele que só dá pra sentir. Perspicaz, inventa desculpas para as pessoas não serem felizes, as mais fajutas e as mais aprimoradas. Aqueles que se enredam nela, acabam muitas vezes não sendo mesmo, iludidos com a convicção da sua fala que repete baixinho que não podem. Não devem. Não merecem.

Por causa dela, muita gente linda amordaça seus sonhos. Coloca a alegria na prateleira mais alta. Esconde sua própria caixa de lápis de cor. Especializa-se em criar nuvens toda vez que o sol se insinua. Nódoa que pede limpeza, dor que aguarda cura, a culpa é uma espécie de dívida pendente que parece não poder ser paga nunca. E, por mais estranho que seja, algumas vezes nem se sabe direito quem é o credor, se é que realmente existe um.

Nem sempre a culpa está relacionada a erros cometidos, passíveis de serem transformados pelo perdão. Ela pode ter a ver com falhas imaginárias, criadas pela confusão, pela impossibilidade de atender à expectativa alheia, pela manipulação, pela ausência de autoamor. É como um quarto fechado que cheira a mofo e tem uma única janela, geralmente emperrada, que precisa ser aberta para se sair de lá. Essa janela abre na direção da gentileza com a própria vida, a única credora de verdade, grande parte das vezes.

Ana Jácomo

...era dessas saudades bem-vindas...



Era saudade, sim, eu pude dar nome quando tocou o meu instante com mãos de surpresa e me convidou pra sentir. Eu deixei que crescesse, que expandisse seus ramos, que florisse com calma, sem tentar adiá-la ou entretê-la, essas coisas que às vezes a gente tenta fazer com saudade que machuca, e vez ou outra até consegue. Mas aquela, eu pressenti pela melodia do perfume que emanava, aquela não tinha a mínima intenção de ferir. Aquela não saberia, ainda que tentasse. Aquela, eu sei, não tentaria.

Não era daquelas saudades que fazem a musculatura da vida ficar toda contraída de dor. Daquelas que amordaçam as flores e espantam as borboletas. Daquelas que engasgam o canto e fazem as asas encolherem. Daquelas traiçoeiras que, na primeira oportunidade, quebram as pontas dos nossos lápis de cor. Daquelas que escondem os brinquedos da gente nas prateleiras mais altas e, por via das dúvidas, encurtam os braços do nosso contentamento. Daquelas que inflam nuvens que depois inundam tudo de carência e de tristeza. Não, aquela não.

Aquela era uma saudade feita de um punhado de sorrisos viçosos floridos no jardim da memória. Era pássaro que cantava macio na árvore mais frondosa da minha gratidão. Era mar que estendia ondas suaves de ternura por toda a orla dos meus olhos. Aquela era dessas saudades que toda vez que dizem acendem um mundaréu de estrelas no céu do coração. Era uma certeza de que a vida sempre arruma maneiras para aproximar as almas irmãs, esses anjos vestidos de gente que tornam mais fácil e mais feliz a nossa temporada de aulas e recreios nesse mundo.

Aquela era dessas saudades bem-vindas que trazem também descanso e alegria na sua cesta de bênçãos. Era dessas saudades que derrubam cercas e desenham pontes. Era dessas saudades que desembrulham lembranças que deixam o instante da gente todo perfumado de Deus. Aquela era dessas saudades generosas que bordam sol no tecido da alma com os seus lindos fios de amor.

Ana Jácomo

15 março, 2011

Eu e tudo que é meu



"Talvez eu seja um pouco de tudo que já li. Um pouco de tudo que meu olhar já aprendeu do mundo. Um pouco das belas músicas. Um pouco daqueles que me são queridos. Um pouco de múltiplos sentimentos e algumas fraquezas. Talvez eu seja um pouco do que você deixou em mim. Mas em essência, o muito da minha essência, É algo delicado e misterioso…”



Rubem Alves

14 março, 2011








O Livro do Desassossego é uma das obras maiores de Fernando Pessoa. 
É assinado pelo semi-heterónimo Bernardo Soares.




“A gente precisa é de fé. E de pessoas. Porque eu me sinto meio vazia de pessoas, pessoas dessas que fazem festa na gente, que fazem a alma bater palmas. Pessoas que entendam esse meu jeito de não fazer muito alarde, de chegar sem espantar as borboletas. Eu tenho uma joaninha no dedo indicador e essa sensibilidade ardendo nos ombros desde muito tempo…”



Jaya Magalhães
“Hoje eu acordei sem nada no estômago,
 sem nada no coração, 
sem ter para onde correr, 
sem colo, 
sem peito, 
sem ter onde encostar, 
sem ter a quem culpar…"






Tati Bernardi


“Tenho um traço marcante no meu carácter - todos os que me conhecem já deram por ele: a autocrítica. Vejo-me em todos os meus atos como se se tratasse de uma pessoa estranha. (…) Esta autocontemplação nunca me larga, e não posso pronunciar uma palavra sem pensar logo em seguida: ‘devia ter dito isto de outra maneira’, ou: ‘foi bem dito’. “



O diário de Anne Frank


“Eu olhava esse menino, com um prazer de companhia, como nunca por ninguém eu não tinha sentido. Achava que ele era muito diferente, gostei daquelas finas feições, a voz mesma, muito leve, muito aprazível. Porque ele falava sem mudança, nem intenção, sem sobêjo de esforço, fazia de conversar uma conversinha adulta e antiga. Fui recebendo em mim um desejo que ele não fosse mais embora, mas ficasse, sobre as horas, e assim como estava sendo, sem parolagem miúda, sem brincadeira— só meu companheiro amigo desconhecido. […] Mas eu aguentei o aque do olhar dele. Aqueles olhos então foram ficando bons, retomando brilho. E o menino pôs a mão na minha. Encostava e ficava fazendo parte melhor da minha pele, no profundo, désse as minhas carnes alguma coisa.” 


João Guimarães Rosa.

- Linhas paralelas se encontram no infinito.

- O infinito não acaba. O infinito é nunca.

- Ou sempre.


 








Caio Fernando de Abreu.

Porque a alegria tem pressa



Me arde uma alegria, que não aceita ser felicidade,

porque a felicidade é uma palavra muito longa e a alegria tem pressa...

Uma alegria de deitar na grama e sentir que está molhada

e não se importar com a roupa orvalhada

e não se importar com a hora e com os modos,

uma alegria que é inocência, mas sem culpa para acabá-la.

Uma alegria que é descobrir os objetos no escuro.



Carpinejar

12 março, 2011

Falar é a salvação


A realidade é coisa delicada,
de se pegar com as pontas dos dedos.

Um gesto mais brutal, e pronto: o nada.
A qualquer hora pode advir o fim.
O mais terrível de todos os medos.

Mas, felizmente, não é bem assim.
Há uma saída – falar, falar muito.
São as palavras que suportam o mundo,
não os ombros. Sem o “porquê”, o sim”,

todos os ombros afundavam juntos.
Basta uma boca aberta (ou um rabisco
num papel) para salvar o universo.
Portanto, meus amigos, eu insisto:
falem se parar. Mesmo sem assunto.

Paulo Henriques Britto in: Macau

Bonito? Depende!

10 março, 2011

Rápido e dolorido

Foi um ensaio
Foi só um insight
Durou muito pouco
Doeu muito mais
Foi trailer de filme
Ensaio de orquestra
Foi jogo suspenso
No auge da festa
Foi curto e intenso
Canção de Caymmi
Foi meio Almodóvar
Foi meio Fellini
Foi como um cometa
No céu da cidade
Foi breve promessa
De felicidade
Eu morro de saudades do que era pra viver
E vivo da viagem de reencontrar você
Meus olhos do passado num futuro que nem sei
De tantas outras vidas
Mil pontos de partida
E todos os detalhes do que não aconteceu
Repetem o roteiro pra mostrar você e eu
O filme recomeça e nunca chega até o fim
E nessa nova vida
Não tem a despedida
Foi só a voz guia
Foi nem a metade
Foi estrela guia
Foi tanta verdade
Um mero rascunho
Mas foi divindade
Grafite no muro
Da minha saudade
Eu morro de saudades...

Juca Novaes

09 março, 2011

Pessoal e intransferível



(...)E afinal quem sou, a esta altura? 






Do pai herdei a retidão e certa melancolia: o olhar sobre o que vem atrás do espelho. 

Da mãe, o otimismo e a alegria. Seu riso inesperado que ainda ecoa nos corredores de uma casa transformada. Da remota linhagem deve ter vindo o novelo de fios que tramam alma e imagem, ninguém sabe de quando nem de onde. 
Nem sei se importa. Mais os trabalhos e a dor, a fantasia, a obstinada procura, alguma sorte, muita esperança na bagagem, me construíram. Caminhões de falhas e de desacertos, sempre a renovação, difícil. Dissabores fazem parte: maior foi a celebração da vida

Entre o começo e a morte, miragens: não há muito de mim na personagem que imagina quem me lê e inventa, e pendura nessa imaginação, como num cabide, seus próprios fantasmas.(...)
A esta altura da vida, sempre em crescimento, com as lutas pessoais e humanas, as contemplações, glórias e derrotas, fênix da própria existência como todos somos...



Lya Luft





"O caminho da vida pode ser o da liberdade e da
beleza, porém, desviamo-nos dele.
A cobiça envenenou a alma dos homens, levantou
no mundo as muralhas do ódio e tem-nos feito marchar
a passo de ganso para a miséria e os morticínios.
Criamos a época da produção veloz, mas nos
sentimos enclausurados dentro dela.
A máquina, que produz em grande escala,
tem provocado a escassez.
Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa
inteligência, empedernidos e cruéis.
Pensamos em demasia e sentimos bem pouco.
Mais do que máquinas, precisamos de
humanidade; mais do que de inteligência, precisamos de
afeição e doçura!
Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo estará perdido."



(Charles Chaplin, em discurso proferido no final do filme O grande ditador.)

Quem gostou da Ideia