30 março, 2012


"Abra-se, relaxe... solte as rédeas... quebre a barreira.

Quem se doa com a alma: recebe a vida por inteira."








Carolina Salcides

Filhas de Adão


Já era amor antes de ser



"Não me lembro mais qual foi nosso começo.

Sei que não começamos pelo começo.

Já era amor antes de ser."





Clarice Lispector

Everytime We Say Goodbye


Essa música foi feita por Cole Porter em 1944.
Desde então, tiveram várias interpretações belíssimas. 
Mas hoje escolhi Ray Charles e Betty Carter para esta tarefa, 
aquecer nosso coração nesta manhã de sexta. 

Um fim de semana cheio de paz pra nós

Aquele Abraço



29 março, 2012

Feito pra Acabar

Quem me diz

Da estrada que não cabe onde termina

Da luz que cega quando te ilumina

Da pergunta que emudece o coração


Quantas são

As dores e alegrias de uma vida

Jogadas na explosão de tantas vidas

Vezes tudo que não cabe no querer


Vai saber

Se olhando bem no rosto do impossível

O véu, o vento e o alvo invisível

Se desvenda o que nos une ainda assim


A gente é feito pra acabar

A gente é feito pra dizer

Que sim

A gente é feito pra caber

No mar

E isso nunca vai ter fim



28 março, 2012

Luvas de Pelica




Tem coisas na vida que exigem um pouco mais de delicadeza e tato: dar notícia ruim, segurar filho dos outros no colo, tirar cutícula etc. Nesses casos é preciso um bocado de amenidade e fineza. As sutilezas têm o poder de transformar o assédio em flerte, a ofensa em ironia e deixar a vida bem mais saborosa.

Veja você que durante uma aula de filosofia que tive no 3º colegial, ergui o braço e fiz uma pergunta sobre Santo Agostinho ou São Tomás de Aquino. O professor, com a delicadeza de um tiranossauro tomando chá com Keith Richards, apossou-se do microfone e recomendou em alto e bom som a meus outros 59 colegas que não fizessem perguntas estúpidas como a minha. Se faltou a meu docente o tato para me explicar que a pergunta era inadequada – e não era, eu juro! – faltou-me também a coragem de cobrar minha merecida retratação.

Ser sutil é fundamental. No entanto, não confunda ser delicado com ser idiota. A pessoa sutil encanta a todos no escritório com seu charme e sua educação. É competente, cai nas graças da chefia e logo é promovida. A pessoa sonsa se deixa atolar de obrigações que não lhe cabem só para agradar aos outros e nunca sai do lugar. O sutil é maroto. Conhece as regras, respeita-as e caminha com graça por seus meandros. O sonso conhece apenas o seu umbigo e dá infinitas cabeçadas contra a parede. O sutil é astuto, o sonso é – pura e simplesmente – e na inércia de sua “sonsura” se deixa levar e acaba metendo as mãos onde não queria nem devia. 




Augusto Paz
* Colunista convidado do Blog Hoje vou assim - Cris Guerra

Amor e Medo



Estou te amando e não percebo,
porque, certo, tenho medo.
Estou te amando, sim, concedo,
mas te amando tanto
que nem a mim mesmo
revelo este segredo.

























Affonso Romano de Sant’Anna

S E P A R A Ç Ã O



Desmontar a casa
e o amor. Despregar
os sentimentos das paredes e lençóis.
Recolher as cortinas
após a tempestade
das conversas.
O amor não resistiu
às balas, pragas, flores
e corpos de intermeio.

Empilhar livros, quadros,
discos e remorsos.
Esperar o infernal
juizo final do desamor.

Vizinhos se assustam de manhã
ante os destroços junto à porta:
-pareciam se amar tanto!

Houve um tempo:
uma casa de campo,
fotos em Veneza,
um tempo em que sorridente
o amor aglutinava festas e jantares.

Amou-se um certo modo de despir-se
de pentear-se.
Amou-se um sorriso e um certo
modo de botar a mesa. Amou-se
um certo modo de amar.

No entanto, o amor bate em retirada
com suas roupas amassadas, tropas de insultos
malas desesperadas, soluços embargados.

Faltou amor no amor?
Gastou-se o amor no amor?
Fartou-se o amor?

No quarto dos filhos
outra derrota à vista:
bonecos e brinquedos pendem
numa colagem de afetos natimortos.

O amor ruiu e tem pressa de ir embora
envergonhado.

Erguerá outra casa, o amor?
Escolherá objetos, morará na praia?
Viajará na neve e na neblina?

Tonto, perplexo, sem rumo
um corpo sai porta afora
com pedaços de passado na cabeça
e um impreciso futuro.
No peito o coração pesa
mais que uma mala de chumbo.


Affonso Romano de Sant’Anna 





Contra capa do livro da Patricia Laura Figueiredo

" Poemas Sem Nome "

Catando os Cacos do Caos




Catar os cacos do caos
como quem cata no deserto
o cacto
- como se fosse flor.

Catar os restos e ossos
da utopia
como de porta em porta
o lixeiro apanha
detritos da festa fria
e pobre no crepúsculo
se aquece na fogueira erguida
com os destroços do dia.

Catar a verdade contida
em cada concha de mão,
como o mendigo cata as pulgas
no pêlo
- do dia cão.

Recortar o sentido
como o alfaiate-artista,
costurá-lo pelo avesso
com a inconsútil emenda
à vista.

Como o arqueólogo
reunir os fragmentos,
como se ao vento
se pudessem pedir as flores
despetaladas no tempo.

Catar os cacos de Dionisio
e Baco, no mosaico antigo
e no copo seco erguido
beber o vinho
ou sangue vertido.

Catar os cacos de Orfeu partido
pela paixão das bacantes
e com Prometeu refazer
o fígado
- como era antes.

Catar palavras cortantes
no rio do escuro instante
e descobrir nessas pedras
o brilho do diamante.

É um quebra-cabeça?
Então
de cabeça quebrada vamos
sobre a parede do nada
deixar gravada a emoção

Cacos de mim
Cacos do não
Cacos do sim
Cacos do antes
Cacos do fim

Não é dentro
nem fora
embora seja dentro e fora
no nunca e a toda hora
que violento
o sentido nos deflora.

Catar os cacos
do presente e outrora
e enfrentar a noite
com o vitral da aurora



Affonso Romano de Sant’Anna 

Eu por Clarice






27 março, 2012

Desejar ser





Manoel de Barros 
Livro sobre Nada

Você tem fome de que?




De repente senti muita fome. Não de comida, mas de todas as palavras escondidas naquelas estantes. Mas eu sabia que, por mais que eu lesse por toda a minha vida, nunca conseguiria ler um milésimo de todas as frases que já foram escritas. Sim, pois há tantas frases no mundo como há estrelas no céu. E elas se multiplicam e se expandem continuamente, como o espaço infinito.

Mas ao mesmo tempo eu sabia que a cada vez que eu abrisse um livro, eu veria um pedacinho desse céu. Sempre que lesse uma frase, saberia um pouco mais do que antes. E tudo o que leio faz o mundo ficar maior, ficando maior eu também. Por um momento, eu contemplei o fantástico, o mágico mundo dos livros.



Jostein Gaarder e Klaus Hagerup 
A Biblioteca Mágica de Bibbi Bokken

26 março, 2012

Alguém descobriu uma sacralidade em você






(...)O amor é essa capacidade de ver o outro de forma diferente. No meio de tanta gente, alguém se torna especial para você e você se aproxima. O amor é essa capacidade de retirar alguém da multidão, tirá-lo do lugar comum para um lugar dedicado, especial. Alguém descobriu uma sacralidade em você.

Amar é você começar a descobrir que, numa multidão, alguém não é multidão.

Quando alguém se aproximou de você foi porque você gerou um encanto nessa pessoa. O outro se sentiu melhor quando se aproximou de você. A beleza da totalidade que você tem faz o outro melhor. A primeira coisa que o amor (...) cura são as orfandades que a vida nos colocou. 




Pe. Fabio de Melo

E aí lembrei de você







Mas aí lembrei, no meio da minha gargalhada, 
como eu queria contar essa história para você. 
E fiquei triste de novo.






Tati Bernardi


23 março, 2012

Pra você guardei o amor






Pra você guardei o amor

Que nunca soube dar

O amor que tive e vi sem me deixar

Sentir sem conseguir provar

Sem entregar

E repartir




Pra você guardei o amor

Que sempre quis mostrar

O amor que vive em mim vem visitar

Sorrir, vem colorir solar

Vem esquentar

E permitir




Quem acolher o que ele tem e traz

Quem entender o que ele diz

No giz do gesto o jeito pronto

Do piscar dos cílios

Que o convite do silêncio

Exibe em cada olhar




Guardei

Sem ter porquê

Nem por razão

Ou coisa outra qualquer

Além de não saber como fazer

Pra ter um jeito meu de me mostrar




Achei

Vendo em você

E explicação

Nenhuma isso requer

Se o coração bater forte e arder

No fogo o gelo vai queimar




Pra você guardei o amor

Que aprendi vendo os meus pais

O amor que tive e recebi

E hoje posso dar livre e feliz

Céu cheiro e ar na cor que arco-íris

Risca ao levitar




Vou nascer de novo

Lápis, edifício, tevere, ponte

Desenhar no seu quadril

Meus lábios beijam signos feito sinos

Trilho a infância, terço o berço

Do seu lar



Nando Reis

22 março, 2012



Mas tudo na vida é escolha.
E aprendizado. 
Cada um escreve à sua maneira 
e tem alguém por aí que pode ser capítulo. 
Ou introdução. 
Depende do espaço que você dá. 
E de como alguém vai escrever história em você.




Fernanda Mello

O pensamento é a minha droga



‎"Porque ‘ler e estudar’ é, necessariamente, fazer uma abertura para o mundo. Não fazer uma abertura para o mundo para observá-lo, ou pra reformá-lo, ou pra transformá-lo. Mas pra ‘destruí-lo’- e produzir ‘outro’ mundo. Ou seja, eu ‘leio’ e ‘estudo’ para saber que o pensamento – sempre que ele se exercer – pode criar novas linhas de vida, logo, outros mundos. Pensar é mergulhar no mundo. Ler é mergulhar no mundo. É exatamente o oposto desses que fazem… é… – são, o quê? – São, mais ou menos, os imbecis letrados – aqueles que se fecham num ‘grande saber’, emitindo ‘máximas’, que não têm serviço nenhum a favor da vida. O pensamento existe, o estudo existe, a leitura existe – pra prestar um serviço… à vida. Então, sempre voltados pro mundo…
(...)
O homem não exerce o seu pensamento por vontade livre; nem o próprio pensamento tende a pensar por natureza. Eu considero que o nosso pensamento só começa a se exercer, quando alguma coisa de fora o força a fazê-lo. Ou seja – nós só pensamos forçados. Isso aqui foi um aprendizado que eu fiz na obra do Deleuze. O homem – naturalmente - é banal, tolo e envolvido em asneiras. Então, pra evitar essas asneiras, eu passo a minha vida como se estivesse drogado. Ou melhor: eu procuro sempre me drogar. Mas essa ‘droga’ que eu uso é… o pensamento. É provavelmente a droga mais poderosa, que não permite mais retorno – não há cura pra ela!…"


[Entrevista concedida por Cláudio Ulpiano em 8 de julho de 1995. O entrevistador era Rodolfo Treitel Paschoal, um aluno]

Em matéria de amor





O amor poderia ter sido uma matéria da quinta série. Assim, eu juro, sentaria a bunda na cadeira e estudaria dias a fio, até os dedos ficarem calejados, até gastar todas as canetas do mundo. Me tornaria a primeira da sala, aquela nerd de camiseta larga e calça de moletom, as melhores notas, os melhores trabalhos. Ainda me prestaria a apresentar no final do ano pesquisas sobre o amor, ainda que não me valesse nota alguma. E certamente teria escolhido o amor como faculdade, especialização, mestrado e doutorado. E daria palestras explicando o porquê de cada coisa do amor que nos belisca, machuca, incomoda, tira a fome e que transborda.
Se o amor tivesse sido mesmo uma matéria, assim, com os olhos vidrados na lousa, eu usaria óculos desde os 7 ou 8 anos de idade, de tanto que teria lido sobre ele, do tanto que teria me entregado, da miopia tremenda que teria me atingido. Talvez tivesse renite por respirar muito o pó do giz do professor, talvez tivesse anemia por ter ficado mais tempo estudando do que me alimentando. Talvez não tivesse amigos por me dedicar tanto ao estudo (talvez tivesse um coração inteiro hoje em dia).
Se o amor tivesse sido explicado na escola, talvez eu não tivesse partido tantas vezes meu coração. Se tivesse aprendido as métricas do amor, não permitiria o choro virar soluço, o soluço virar falta de ar, a falta de ar virar falta de esperança e assim vai. Teria medido as menções, teria medido tempo e espaço e as probabilidades daquilo dar certo.
O amor poderia vir em almanaques, poderia existir um dicionário com suas milhões de páginas explicativas, com milhões de definições, com milhões de sinônimos e saídas estratégicas.
Se o amor tivesse sido uma matéria, talvez não existissem abismos, sufocos diários e fotos rasgadas. Se tivesse sido explicado, se o amor tivesse sido desenhado e submetido a análises… Não estaríamos constantemente procurando explicações para seus derivados como a saudade, a decepção, o abandono e o medo. Mas também, quem sabe, se o amor tivesse sido uma matéria escolar, talvez hoje em dia ele não passasse mesmo de um estudo anotado em cadernos.




Camila Heloíse
O que é imenso é estreito.
O que é infinito fecha. 
Até o oceano
tem becos e ruas sem saída.
Até o oceano. 












F. Carpinejar

Embelezar Futuros



Partira para além da fronteira sabendo que poderia nunca mais voltar. Ele levara uma mágoa, trouxera um sonho. E era um sonho de embelezar futuros.




Mia Couto

21 março, 2012

Por que



Por que é tão bom ao teu lado? 

Será que posso saber? 

Ou devo ficar quietinho 

Vivendo o que tem de ser? 


Minha alma vibra com a tua 

Meu santo bate com o teu 

Eu quero é ficar pertinho 

Do sonho que Deus me deu 


Por que tem de ser você? 

Tanta gente no mundo 

Ah se eu pudesse saber 

Ah se eu pudesse saber 


Corpos que quase flutuam 

Na gravidade a paixão 

Órbitas que se entrelaçam 

Nas voltas do coração 


Por que é tão bom ao teu lado 

Será que quero saber? 

É melhor ficar juntinho 

Até quando Deus quiser 


Porque gosto do teu cheiro 

E de pegar na tua mão, por que? 

Meu Deus, por que tanto carinho? 

E os beijos, que querem dizer? 




Dizem todos que te amo 

E que só penso em você



Chico Adnet

Antes...


15 março, 2012




Eu me perguntei 

porque quando mais precisamos

de nós mesmos, geralmente mais nos faltamos? 

Que estranha escolha é essa, que faz a gente alimentar 

os abismos, quando mais precisa valorizar as próprias asas. 




Ana Jácomo






Tào eu


Nada do que fui me veste agora..


.Quando fui chuva, Maria Gadú.













Selinho

A Ana Martins do Blog Pequenas Epifanias 

me indicou para ganhar esse selinho. 

Obrigada pelo carinho querida





As Regras são: 

Falar 8 coisas sobre mim e repassar para 9 Blogs.


Sobre mim:


1 - Eu tenho um Deus que me ama e que é amado por mim;
2 - Meus filhos, minha vida;
3 - Tenho poucos amigos, mas são os melhores do mundo;
4 - Acredito no tempo e nas coisas que ele trás e leva embora;
5 - Tenho pavor de palhaço, canto gregoriano e injustiça
6 - Ler me transporta;
7 - Amo música e poesias;
8 - A solidariedade é uma coisa que me comove, pois a tempos perdi a esperança na humanidade.


Repassando para os Blogs:

5 - Na Rede


Memórias



Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.



Drummond

14 março, 2012

Para isso fomos feito





Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.

Assim será nossa vida:

Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.

Não há muito o que dizer:

Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos: 
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.



Vinicius de Moraes



É preciso saber ouvir. Acolher. Deixar que o outro entre dentro da gente. Ouvir em silêncio. Sem expulsá-lo por meio de argumentos e contra-razões. E é preciso saber falar. Somente sabem falar os que sabem fazer silêncio e ouvir. E, sobretudo, os que se dedicam à difícil arte de adivinhar: adivinhar os mundos adormecidos que habitam os vazios do outro.







Ana Jácomo

AMOR I LOVE YOU

Amei esse vídeo...compartilho com quem gosta =))






Aprecio essa gentileza tênue e equilibrista que alcanço quando não desisto tão fácil de algumas tentativas. Pareço imbatível, mas, lá dentro, só estou me perdoando pela constante falta de jeito. É que, lá de cima tudo é tão vasto, tudo é tão rico que a alma ampliada desequilibra. Então, de vez em quando fico rígida para não cair nos braços de qualquer desassossego. De longe, entusiasmar - se com um simples passo ameno e incomum às vezes é tão descomplicado que parece milagre - e a gente, sem graça, complica. Mas, não é.
A reciprocidade sempre reaparece quando o outro faz estragos dentro da gente (quando a corda balança, quando o amor desanda, quando o orgulho ocupa lugares ou, quando não há um ombro supervisionando nossos golpes e quedas). Não sei se a travessia vale a dor do mundo, mas, vale muito. Vale cada centímetro de sorriso. E um abraço.


Priscila Rôde





Eu não havia marcado hora pra viver aquele instante. Ele não estava anotado na agenda da minha expectativa. Não utilizei o tempo dos olhos na direção de calendários e relógios por aguardá-lo. Não me preparei para recebê-lo. Aconteceu de repente, feito chuva derramada de improviso, sem que o céu revele antecipadamente o seu desejo em alto e bom som. Quando percebi, eu estava lá e ele era perfeito.



Ana Jácomo

13 março, 2012

Multi



Batom na boca, comida na mesa, esmalte fresco, casa limpa.
Roupa passada, flores regadas, salto alto, pé na estrada.
Cabelos ao vento, corpo ao sol.
Curvas e cores, dores, amores.
Tempo curto, amor demais.
Homem, crianças, animais.
Dona de tudo, dona de si.
Varre dançando, se olha no espelho, vive amando.
Acorda cedo, corre, voa , cai, levanta.
Chora, ri, sonha, concretiza.
Bruxa, fada, sacerdotisa.
Faz feitiço na cozinha
Sortilégios a luz do dia
Faz magia na cama.
Beija, olha nos olhos
Ama, ama.


Carolina Salcides

12 março, 2012

Inside

Desenho by Wili


Posso reacender mais um lume e acreditar nesse céu interno provisório como se não houvesse, entre nós, uma fase tão confusa. Posso falar de uma alegria rasurada e dizê – la só com os olhos como se não soubesse do cansaço daquele sorriso. Posso esmiuçar distâncias com um fio de pensamento e dissolver o desapego num abraço. E posso desatar as circunstâncias mais sisudas, só porque não me encaixo neste novo tumulto. Posso tanto, tanto, porque tenho uma prece simplificada. Talvez amanhã ou, em qualquer outro silêncio, algum susto me desajuste. Mas, hoje não. Há muito barulho lá fora.


(Alguns se acumulam bem no meio do caos, no meio do vento. Outros, estreitos, nascem pro acaso ou pra falta de tempo. Hoje, acordei para dentro. E não pretendo descer agora.)




Priscila Rôde

Luz Antiga



O meu coração

É um músculo involuntário

E ele pulsa por você.







Marisa Monte






Passeio pelas estantes da biblioteca. Os livros me dão as costas. Não para me rejeitar, como as pessoas: são convidativos, querendo apresentar-se a mim. Metros e mais metros de livros que nunca poderei ler. E sei: o que aqui se oferece é a vida, são complementos à minha própria vida que esperam ser postos em uso. Mas os dias passam rápido e deixam para trás as possibilidades. Um único desses livros talvez bastasse para mudar completamente a minha vida. Quem sou eu agora? Quem eu seria então?”



J. Gaarder e K. Hagerup in A Biblioteca Mágica de Bibbi Bokken 

08 março, 2012

Construção



Amou daquela vez como se fosse a última 
Beijou sua mulher como se fosse a última 
E cada filho seu como se fosse o único 
E atravessou a rua com seu passo tímido 
Subiu a construção como se fosse máquina 
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas 
Tijolo com tijolo num desenho mágico 
Seus olhos embotados de cimento e lágrima 
Sentou pra descansar como se fosse sábado 
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe 
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago 
Dançou e gargalhou como se ouvisse música 
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado 
E flutuou no ar como se fosse um pássaro 
E se acabou no chão feito um pacote flácido 
Agonizou no meio do passeio público 
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego 
Amou daquela vez como se fosse o último 
Beijou sua mulher como se fosse a única 
E cada filho seu como se fosse o pródigo 
E atravessou a rua com seu passo bêbado 
Subiu a construção como se fosse sólido 
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas 
Tijolo com tijolo num desenho lógico 
Seus olhos embotados de cimento e tráfego 
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe 
Comeu feijão com arroz como se fosse máquina 
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo 
E tropeçou no céu como se ouvisse música 
E flutuou no ar como se fosse sábado 
E se acabou no chão feito um pacote tímido 
Agonizou no meio do passeio náufrago 
Morreu na contramão atrapalhando o público 
Amou daquela vez como se fosse máquina 
Beijou sua mulher como se fosse lógico 
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas 
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro 
E flutuou no ar como se fosse um príncipe 
E se acabou no chão feito um pacote bêbado 
Morreu na contramão atrapalhando o sábado


Chico Buarque

07 março, 2012

A Garota da Vitrine

Esse filme é um dos meus preferidos (vi umas 5 vezes). Tem uma narrativa simples, romântico, nada de muito profundo...apenas leve e que nos faz pensar sobre nossas escolhas. Aborda o aspecto da solidão com delicadeza e muitas das vezes, com humor. Achei uma delicia.
A última cena me arrepiou inteira, comovente. E tem um narrador que dá ao filme um aspecto solene, auxiliado pela ótima trilha sonora. GAROTA DA VITRINE foi baseado numa novela escrita pelo próprio Steve Martin. Foi ele quem adaptou o roteiro para o cinema.

Vai aí uma seleção de imagens de aperitivo =))











Para inspirar o dia

06 março, 2012

Porres literários

As mulheres fazem coisas diferentes quando estão deprimidas. Algumas fumam, outras bebem, outras ligam para o terapeuta, algumas comem. Minha mãe costumava ficar furiosa quando ela e meu pai brigavam e, depois, se embriagava durante dias sem fim e desaparecia dentro do quarto. Minha irmã era mais do tipo frieza total; dê-lhes um gelo e, nesse meio tempo, devore um bolo gelado Sara Lee de banana. E o que eu faço – o que sempre fiz – é sumir de tudo e de todos, mergulhando em um porre literário que pode durar vários dias.




Tenho todo um ritual para meus porres literários. Primeiro de tudo, abro uma garrafa de um bom vinho tinto. Depois desligo o celular, ligo a secretária eletrônica, reúno todos os livros que tenho a intenção de ler ou reler e ainda não o fiz.




J. Kaufman & K. Mack in Ler, Viver e Amar em Los Angeles 

A melhor memória de nossa espécie



Ao longo da história o homem tem sonhado e forjado um sem-fim de instrumentos. Criou a chave, uma barrinha de metal que permite que alguém penetre em um vasto palácio. Criou a espada e o arado, prolongações do braço do homem que os usa. Criou o livro, que é uma extensão secular de sua imaginação e de sua memória. A partir dos Vedas e das Bíblias, temos aceitado a noção dos livros sagrados. Em certo modo, todo livro é. Nas páginas iniciais de Quixote, Cervantes deixou escrito que recolhia e lia qualquer pedaço de papel impresso que encontrava na rua. Qualquer papel que encerra uma palavra é uma mensagem que um espírito humano manda a outro espírito. Agora, como sempre, o instável e precioso mundo pode se perder. Somente podem salvar os livros, que são a melhor memória de nossa espécie.






Jorge Luis Borges 

02 março, 2012

Casas Amáveis

Vão demolir esta casa.
Mas meu quarto vai ficar,
Não como forma imperfeita
Neste mundo de aparências:
Vai ficar na eternidade,
Com seus livros, com seus quadros,
Intacto, suspenso no ar!

Manuel Bandeira






É curioso: só vivi dois anos nesta casa,
e é nela que me parece estar metida
minha vida inteira!

Éça de Queiros





Vocês me dirão que as casas antigas têm ratos, goteiras, portas e janelas empenadas, trincos que não correm, encanamentos que não funcionam. Mas não acontece o mesmo com tantos apartamentos novinhos em folha? Agora, o que nenhum arranha-céu poderá ter, e as casas antigas tinham, é esse ar humano, esse modo comunicativo, essa expressão de gentileza que enchiam de mensagens amáveis as ruas de outrora.

Havia o feitio da casa: os chalés, com aquelas rendas de madeira pelo telhado, pelas varandas, eram uma festa, uma alegria, um vestido de noiva, uma árvore de Natal.
As casas de platibanda expunham todos os seus disparates felizes: jarros e compoteiras lá no alto, moças recostadas em brasões, pássaros de asas abertas, painéis com datas e monogramas em relevos de ouro. Tudo isso queria dizer alguma coisa: as fachadas esforçavam-se por falar. E ouvia-se a sua linguagem com enternecimento. Mas, hoje, quem se detém a olhar para rosas esculpidas, acentos, estrelas, cupidos, esfinges, cariátides? Eram recordações mediterrâneas, orientais: mitologia, paganismo, saudade. (Que quer dizer saudade? E para que e o que recordar?)
Os jardins tinham suas deusas, seus anões; possuíam mesmo bosques, onde morariam ecos e oráculos; e pequenas cascatas, pequenas grutas com um pouco d'água para os peixinhos. Possuíam canteiros de flores obscuras - violetas, amores-perfeitos - para serem vistas só de perto, carinhosamente, uma por uma, de cor em cor. (Hoje, estes ventos grandiosos apagam tudo.) E, lá dentro, as casas tinham corredores crepusculares, porões úmidos, habitados por certos fantasmas domésticos, que de vez em quando se faziam lembrar, com seus pálidos sopros, seus transparentes calcanhares, suas algemas de escravidão.
As famílias abrigavam cortejos de mortos. E havia as clarabóias. Luz como aquela? Nem a do luar! - uma suavidade de cinza e marfim, a maciez da seda, o fulgor da opala. As casas eram o retrato de seus proprietários. Sabia-se logo de suas virtudes e defeitos. Retratos expostos ao público: nem sempre simpáticos, mas geralmente fiéis. Agora, os andaimes sobem, para os arranha-céus vitoriosos, frios e monótonos, tão seguros de sua utilidade que não podem suspeitar da sua ausência de gentileza. Qualquer dia, também desaparecerão essas últimas casas coloridas que exibem a todos os passantes suas ingênuas alegrias íntimas - flores de papel, abajures encarnados, colchas de franjas - e sujas risonhas proprietárias têm sempre um Y no nome, Yara, Nancy, Jeny... Ah! Não veremos mais essas palavras, em diagonal, por cima das janelas, de cortininhas arregaçadas, com um gatinho dormindo no peitoril. Afinal, tudo serão arranha-céus. (Ninguém mais quer ser como é: todos querem ser como os outros são.) E eis que as ruas ficarão profundamente tristes, sem a graça, o encanto, a surpresa das casas que vão sendo derrubadas. Casas suntuosas ou modestas, mas expressivas, comunicantes.Casas amáveis.



Cecília Meireles. Escolha o Seu Sonho- Editora Record, p.17-19
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Quem gostou da Ideia