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07 outubro, 2011




"A mãe era um estrago de braba, mas quando eu lembro dela me castigando com o safanão do pente na cabeça e me fazendo dois molhos de cachinhos pra eu ir bonita pra escola, me dá um engasgo, uma saudade sem remédio, uma vontade de ser pobre igual antigamente, só pra escutar ela falar: Já ta ficando mocinha, umas roupinhas melhores... e o pai: moça bonita não precisa disso não... 

Eh, meu Deus, quanto jeito que tem de ter amor!"


Adélia Prado

27 julho, 2011

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. 





Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
-- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável.
Eu sou.





Adélia Prado

15 maio, 2011

Casamento



Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como "este foi difícil"
"prateou no ar dando rabanadas"
e faz o gesto com a mão.

O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.

07 abril, 2011

O que tem que ser vem com força



O que precisa nascer
tem sua raiz em chão de casa velha.
À sua necessidade o piso cede,
estalam rachaduras nas paredes,
os caixões de janela se desprendem.
O que precisa nascer
aparece no sonho buscando frinchas no teto,
réstias de luz e ar.
Sei muito bem do que este sonho fala
e a quem pode me dar
peço coragem.




Adélia Prado in:
A duração do dia

20 janeiro, 2011




'Sofro por causa do meu espírito
de colecionador-arqueólogo.
Quero pôr o bonito
numa caixa com chave
para abrir de vez em quando e olhar.'







Adélia Prado


"Hoje estou melancólica e suspirosa,

choveu muito, 

a água invadiu este porão de lembranças,

bóiam na enxurrada a caminho do rio.

Deixo que naveguem, 

pois não as perderei. 

O rio é dentro de mim."



Adélia Prado

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