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05 fevereiro, 2012

Aos Casados




Aos casados há muito tempo 
aos que não casaram, 
aos que vão casar, 
aos que acabaram de casar, 
aos que pensam em se separar, 
...aos que acabaram de se separar, 
aos que pensam em voltar... 

Por mais que o poder e o dinheiro tenham conquistado 
uma ótima posição no ranking das virtudes, 
o amor ainda lidera com folga. 
Tudo o que todos querem é amar. 
Encontrar alguém que faça bater forte o coração 
e justifique loucuras. 
Que nos faça entrar em transe, cair de quatro, 
babar na gravata. 
Que nos faça revirar os olhos, rir à toa, 
cantarolar dentro de um ônibus lotado. 
Tem algum médico aí??? 
Depois que acaba esta paixão retumbante, 
sobra o que? 

O amor. 
Mas não o amor mistificado, 
que muitos julgam ter o poder de fazer levitar. 
O que sobra é o amor que todos conhecemos, 
o sentimento que temos por mãe, pai, irmão, filho. 
É tudo o mesmo amor, só que entre amantes existe sexo. 
Não existem vários tipos de amor, 
assim como não existem três tipos de saudades, 
quatro de ódio, seis espécies de inveja. 
O amor é único, como qualquer sentimento, 
seja ele destinado a familiares, ao cônjuge ou a Deus. 

A diferença é que, como entre marido 
e mulher não há laços de sangue, 
a sedução tem que ser ininterrupta. 
Por não haver nenhuma garantia de durabilidade, 
qualquer alteração no tom de voz nos fragiliza, 
e de cobrança em cobrança acabamos por sepultar
uma relação que poderia ser eterna. 
Casaram. Te amo prá lá, te amo prá cá. 
Lindo, mas insustentável. 
O sucesso de um casamento
exige mais do que declarações românticas. 
Entre duas pessoas que resolvem dividir o mesmo teto, 
tem que haver muito mais do que amor, 
e às vezes nem necessita de um amor tão intenso. 
É preciso que haja, antes de mais nada, respeito.
Agressões zero. Disposição para ouvir argumentos alheios. 
Alguma paciência... Amor, só, não basta. 

Não pode haver competição. Nem comparações.
Tem que ter jogo de cintura para acatar regras 
que não foram previamente combinadas. 
Tem que haver bom humor para enfrentar imprevistos, 
acessos de carência, infantilidades. 
Tem que saber levar. Amar, só, é pouco. 

Tem que haver inteligência. 
Um cérebro programado para enfrentar tensões pré-menstruais,
rejeições, demissões inesperadas, contas pra pagar. 
Tem que ter disciplina para educar filhos, 
dar exemplo, não gritar. Tem que ter um bom psiquiatra. 
Não adianta, apenas, amar. 
Entre casais que se unem visando à longevidade do matrimônio 
tem que haver um pouco de silêncio, amigos de infância, 
vida própria, um tempo pra cada um. 
Tem que haver confiança. 
Uma certa camaradagem, 
às vezes fingir que não viu, fazer de conta que não escutou. 
É preciso entender que união não significa, 
 necessariamente, fusão. 
E que amar, 'solamente', não basta. 

Entre homens e mulheres que acham que o amor é só poesia,
falta discernimento, pé no chão, racionalidade. 
Tem que saber que o amor pode ser bom, pode durar para sempre, 
mas que sozinho não dá conta do recado. 
O amor é grande mas não é dois. 
É preciso convocar uma turma de sentimentos 
para amparar esse amor que carrega o ônus da onipotência. 
O amor até pode nos bastar, mas ele próprio não se basta. 

Um bom amor aos que já têm!
Um bom encontro aos que procuram!
E felicidades a todos nós! 



Artur da Távola

17 setembro, 2011

A vida ensina



Se você pensa que sabe; 

que a vida lhe mostre o quanto não sabe.
Se você é muito simpático mas leva meia hora para concluir seu pensamento; 
que a vida lhe ensine que explica melhor o seu problema 
aquele que começa pelo fim.
Se você faz exames demais; 
que a vida lhe ensine que doença é como esposa ciumenta: 
se procurar demais, acaba achando.
Se você pensa que os outros é que sempre são isso ou aquilo; 
que a vida lhe ensine a olhar mais para você mesmo.
Se você pensa que viver é horizontal, unitário, definido, monobloco; 
que a vida lhe ensine a aceitar o conflito como condição lúdica da existência.
Tanto mais lúdica quanto mais complexa.
Tanto mais complexa quanto mais consciente.
Tanto mais consciente quanto mais difícil.
Tanto mais difícil quanto mais grandiosa.
Se você pensa que disponibilidade com paz não é felicidade; 
que a vida lhe ensine a aproveitar os raros momentos em que ela (a paz) surge.
Que a vida ensine a cada menino a seguir o cristal que leva dentro, sua bússola existencial não revelada, sua percepção não verbalizável das coisas, sua capacidade de prosseguir com o que lhe é peculiar e próprio, por mais que pareçam úteis e eficazes as coisas que a ele, no fundo, não soam como tais, embora façam aparente sentido 

e se apresentem tão sedutoras quanto enganosas.
Que a vida nos ensine, a todos, a nunca dizer as verdades na hora da raiva.
Que desta aproveitemos apenas a forma direta e lúcida pela qual as verdades se nos revelam por seu intermédio; 
mas para dizê-las depois.
Que a vida ensine que tão ou mais difícil do que ter razão, é saber tê-la.
Que aquele garoto que não come, coma.
Que aquele que mata, não mate.
Que aquela timidez do pobre passe.
Que a moça esforçada se forme.
Que o jovem jovie.
Que o velho velhe.
Que a moça moce.
Que a luz luza.
Que a paz paze.
Que o som soe.
Que a mãe manhe.
Que o pai paie.
Que o sol sole.
Que o filho filhe.
Que a árvore arvore.
Que o ninho aninhe.
Que o mar mare.
Que a cor core.
Que o abraço abrace.
Que o perdão perdoe.
Que tudo vire verbo e verbe.
Verde. Como a esperança.
Pois, do jeito que o mundo vai, dá vontade de apagar
e começar tudo de novo.
A vida é substantiva,
nós é que somos adjetivos.

Artur da Távola


06 abril, 2011

Afinidade



A afinidade não é o mais brilhante, mas o mais sutil, 
delicado e penetrante dos sentimentos. 
E o mais independente. 
Não importa o tempo, a ausência, os adiamentos, 
as distâncias, as impossibilidades. 
Quando há afinidade, qualquer reencontro 
retoma a relação, o diálogo, a conversa, o afeto 
no exato ponto em que foi interrompido. 

Afinidade é não haver tempo mediando a vida. 
É uma vitória do adivinhado sobre o real. 
Do subjetivo para o objetivo. 
Do permanente sobre o passageiro. 
Do básico sobre o superficial. 

Ter afinidade é muito raro. 
Mas quando existe não precisa de códigos 
verbais para se manifestar. 
Existia antes do conhecimento, 
irradia durante e permanece depois que 
as pessoas deixaram de estar juntas. 
O que você tem dificuldade de expressar 
a um não afim, sai simples e claro diante 
de alguém com quem você tem afinidade. 

Afinidade é ficar longe pensando parecido a 
respeito dos mesmos fatos que impressionam comovem ou mobilizam. 
É ficar conversando sem trocar palavras. 
É receber o que vem do outro com aceitação anterior ao entendimento...

Afinidade é sentir com. Nem sentir contra, 
nem sentir para, nem sentir por. 
Quanta gente ama loucamente, 
mas sente contra o ser amado. 
Quantos amam e sentem para o ser amado, 
não para eles próprios. 

Sentir com é não ter necessidade de explicar o que está sentindo. 
É olhar e perceber. 
É mais calar do que falar, ou, quando falar, 
jamais explicar: apenas afirmar. 

Afinidade é jamais sentir por. 
Quem sente por, confunde afinidade com masoquismo. 
Mas quem sente com, avalia sem se contaminar. 
Compreende sem ocupar o lugar do outro. 
Aceita para poder questionar. 
Quem não tem afinidade, questiona por não aceitar. 

Afinidade é ter perdas semelhantes e iguais esperanças. 
É conversar no silêncio, tanto das possibilidades exercidas, 
quanto das impossibilidades vividas. 

Afinidade é retomar a relação no ponto em que 
parou sem lamentar o tempo de separação. 
Porque tempo e separação nunca existiram. 
Foram apenas oportunidades dadas (tiradas) pela vida, 
para que a maturação comum pudesse se dar. 
E para que cada pessoa pudesse e possa ser, 
cada vez mais a expressão do outro sob a 
forma ampliada do eu individual aprimorado.

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