01 dezembro, 2012

Organiza o natal






"Alguém observou que cada vez mais o ano se compõe de 10 meses; imperfeitamente embora, o resto é Natal. É possível que, com o tempo, essa divisão se inverta: 10 meses de Natal e 2 meses de ano vulgarmente dito. E não parece absurdo imaginar que, pelo desenvolvimento da linha, e pela melhoria do homem, o ano inteiro se converta em Natal, abolindo-se a era civil, com suas obrigações enfadonhas ou malignas. Será bom.
Então nos amaremos e nos desejaremos felicidades ininterruptamente, de manhã à noite, de uma rua a outra, de continente a continente, de cortina de ferro à cortina de nylon — sem cortinas. Governo e oposição, neutros, super e subdesenvolvidos, marcianos, bichos, plantas entrarão em regime de fraternidade. Os objetos se impregnarão de espírito natalino, e veremos o desenho animado, reino da crueldade, transposto para o reino do amor: a máquina de lavar roupa abraçada ao flamboyant, núpcias da flauta e do ovo, a betoneira com o sagüi ou com o vestido de baile. E o supra-realismo, justificado espiritualmente, será uma chave para o mundo.
Completado o ciclo histórico, os bens serão repartidos por si mesmos entre nossos irmãos, isto é, com todos os viventes e elementos da terra, água, ar e alma. Não haverá mais cartas de cobrança, de descompostura nem de suicídio. O correio só transportará correspondência gentil, de preferência postais de Chagall, em que noivos e burrinhos circulam na atmosfera, pastando flores; toda pintura, inclusive o borrão, estará a serviço do entendimento afetuoso.
A crítica de arte se dissolverá jovialmente, a menos que prefira tomar a forma de um sininho cristalino, a badalar sem erudição nem pretensão, celebrando o Advento.
A poesia escrita se identificará com o perfume das moitas antes do amanhecer, despojando-se do uso do som. Para que livros? perguntará um anjo e, sorrindo, mostrará a terra impressa com as tintas do sol e das galáxias, aberta à maneira de um livro.
A música permanecerá a mesma, tal qual Palestrina e Mozart a deixaram; equívocos e divertimentos musicais serão arquivados, sem humilhação para ninguém.
Com economia para os povos desaparecerão suavemente classes armadas e semi-armadas, repartições arrecadadoras, polícia e fiscais de toda espécie. Uma palavra será descoberta no dicionário: paz.
O trabalho deixará de ser imposição para constituir o sentido natural da vida, sob a jurisdição desses incansáveis trabalhadores, que são os lírios do campo. Salário de cada um: a alegria que tiver merecido. Nem juntas de conciliação nem tribunais de justiça, pois tudo estará conciliado na ordem do amor.
Todo mundo se rirá do dinheiro e das arcas que o guardavam, e que passarão a depósito de doces, para visitas. Haverá dois jardins para cada habitante, um exterior, outro interior, comunicando-se por um atalho invisível.
A morte não será procurada nem esquivada, e o homem compreenderá a existência da noite, como já compreendera a da manhã.
O mundo será administrado exclusivamente pelas crianças, e elas farão o que bem entenderem das restantes instituições caducas, a Universidade inclusive.
E será Natal para sempre."



**Organiza o Natal de Carlos Drummond de Andrade 
– Texto extraído do livro "Cadeira de Balanço", 
Livraria José Olympio Editora 
– Rio de Janeiro, 1972, pág. 52]

17 novembro, 2012

João de Barro


Eu amei essa versão...inspirou meu sábado.

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Quando fui chuva







"Quando já não tinha espaço pequena fui
Onde a vida me cabia apertada
Em um canto qualquer acomodei
Minha dança os meus traços de chuva
E o que é estar em paz
Pra ser minha e assim ser tua

Quando já não procurava mais
Pude enfim, nos olhos teus vestidos d'água
Me atirar tranqüila daqui
Lavar os degraus, os sonhos e as calçadas


E assim no teu corpo eu fui chuva
Jeito bom de se encontrar
E assim no teu gosto eu fui chuva
Jeito bom de se deixar viver


Nada do que eu fui me veste agora
Sou toda gota, que escorre livre pelo rosto
E só sossega quando encontra a tua boca

E mesmo que em ti me perca
Nunca mais serei aquela
Que se fez seca
Vendo a vida passar pela janela

Quando já não procurava mais
Pude enfim, nos olhos teus vestidos d'água
Me atirar tranquila daqui
Lavar os degraus, os sonhos e as calçadas


E assim no teu corpo eu fui chuva
Jeito bom de se encontrar
E assim no teu gosto eu fui chuva
Jeito bom de se deixar viver"



Gadú

01 novembro, 2012

Nosso Luto








EDUCAÇÃO

É com profundo pesar que anunciamos o falecimento da Educação. O princípio de todos os princípios foi vítima da falta de investimentos. Sim, mas também da nossa indesculpável falta de tempo para os filhos da evasão escolar, da negligência familiar, das prioridades equivocadas e da falta de preocupação com o futuro de cada um e de todos nós.
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EMPREGO

Consternados, comunicamos o falecimento de nosso querido emprego, devido ao fracasso de políticas sociais e da falta de confiança para investir no enorme potencial do nosso país. Sentiremos muito a sua falta.
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FAMÍLIA

É nosso doloroso dever informar o falecimento da família. Instituição querida que se foi devido aos maus-tratos, ao alcoolismo, ao abuso sexual, à falta de planejamento familiar, ao trabalho e à exploração infantil e à recorrente falta de carinho, apoio e respeito ao próximo.
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DIGNIDADE

Lamentamos comunicar o falecimento da dignidade, fruto da dificuldade que homens, mulheres e crianças do nosso país encontram para garantir oportunidades e condições mínimas para levar uma vida decente.
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INFÂNCIA

Lamentamos a partida da nossa querida infância. Um período tão importante de nossas vidas que, infelizmente, se foi graças à exploração e à necessidade do trabalho infantil, ao desrespeito ao estatudo da criança e do adolescente, ao erro de não se viver cada coisa ao seu tempo e aos inúmeros "cresce menino!" ouvidos Brasil afora. Sentiremos saudades da infância. Mais ainda por aqueles que, por não a conhecerem, não poderão sentir.
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RESPONSABILIDADE

Informamos a todos, com muita dor, o falecimento da responsabilidade; vitimada pela inconsequência daqueles que mesmo cientes de seus deveres, deixam de cumprí-los e pela classe média, que financia o tráfico por meio do consumo de drogas, uma diversão hipócrita que não tem a menor graça.
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CIDADANIA

É com dor e consternação que informamos a todos o falecimento de nossa muito amada cidadania. Fundamento básico da convivência social, a cidadania foi vítima de violações de leis e direitos humanos e até mesmo da nossa atitude, cada vez que nos omitimos, preferindo reclamar que "ninguém faz nada" a levantar, tomar voz e participar ativamente da construção da nossa sociedade.
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TOLERÂNCIA

Comunicamos o falecimento da nossa querida tolerância, causado pela arrogância, pela prepotência, pelo preconceito, explícito ou velado, que todos manifestamos em algum momento de nossas vidas. Em homenagem a essa triste partida, lembremos que o princípio de que uns são melhores do que os outros só nos torna piores.
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MORADIA

Informamos com pesar o seu falecimento. A nossa querida moradia se foi por falta de planejamento público, pela incapacidade de lidar corretamente com a favelização e pela dificuldade em garantir que comunidades carentes tenham acesso à luz, ao saneamento básico, enfim, às condições propícias para o estabelecimento digno de uma base familiar.
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RESPEITO

É com extremo pesar que comunicamos o falecimento do respeito, causado por carros avançando os sinais, pessoas jogando lixo nas ruas, lugares não cedidos nos ônibus, carteiradas e por todas as situações em que esquecemos que o nosso direito termina onde começa o do outro.
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HONESTIDADE

Com profunda dor, informamos o falecimento da honestidade. Um princípio que se foi devido à sonegação de impostos, às compras de produtos piratas, às "cervejinhas" deixadas nas blitz e, principalmente, devido à nossa equivocada mania de chamar corrupção em pequena escala de "jeitinho".
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JUSTIÇA

Lamentamos a partida de nossa amada justiça, causada pelo corporativismo, pelos pré-julgamentos e preconceitos, pela arrogância, pela troca de favores, pela corrupção e, principalmente, pela impunidade.
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SOLIDARIEDADE

É com extremo pesar que comunicamos a todos o falecimento de nossa querida solidariedade, vítima do individualismo exacerbado, do egoísmo e da nossa crescente incapacidade de levantar uma mão que seja em prol de uma sociedade mais justa e igualitária.
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CIVILIDADE

Consternados, informamos o falecimento da civilidade. Muitas foram as causas desse triste óbito: a nossa mania de levar vantagem em tudo, as filas que desrespeitamos, as brigas no trânsito e a nossa insistência em escolher, por conveniência, as leis a serem respeitadas. O país sentirá saudades.
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AUTORIDADE

Comunicamos, consternados, o falecimento da autoridade. Mais uma vítima dos progressivos desmandos e abusos de poder, da corrupção, do descaso e do mau exemplo, que geraram desconfiança e fizeram com que a palavra autoridade se tornasse sinônimo de medo e de omissão, e não mais de respeito e reverência.
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BOM SENSO

Comunicamos o lamentável falecimento do bom senso. Mais uma vítima dos incontáveis equívocos na definição de prioridades, da falta de diálogo e das inúmeras coisas que deixamos de fazer, ou trocamos por outras absolutamente irrelevantes, simplesmente por não pararmos uma minuto sequer para refletir sobre o que realmente importa.




[autoria desconhecida]




**Retirado do blog Mundo da Gislene

Quem gostou da Ideia