05 fevereiro, 2012

Vai ter amor, vai ter fé, vai ter paz...



”Tem uma felicidade mansa por dentro, devagarinho. A casa bonita. Os dias bonitos. A roseira bonita. E pessoas novas (tem coisa melhor que gente?). E trabalhos novos (breve a cores). Guardo o meu amor por dentro. É precioso. Pensar nele faz com que eu tenha vontade de cuidar de mim mesmo – então é bom. Guardando, guardando, feito joia. Precioso, delicado. (…) As coisas vão dar certo. Vai ter amor, vai ter fé, vai ter paz – se não tiver, a gente inventa.”


Caio Fernando Abreu.

Namore uma garota que lê

Mulher com chapéu lendo, 2007
Salvador Perez Bassols (Espanha 1948)
óleo sobre tela


“Namore uma garota que gasta seu dinheiro em livros, em vez de roupas. Ela também tem problemas com o espaço do armário, mas é só porque tem livros demais. Namore uma garota que tem uma lista de livros que quer ler e que possui seu cartão de biblioteca desde os doze anos.

Encontre uma garota que lê. Você sabe que ela lê porque ela sempre vai ter um livro não lido na bolsa. Ela é aquela que olha amorosamente para as prateleiras da livraria, a única que surta (ainda que em silêncio) quando encontra o livro que quer. Você está vendo uma garota estranha cheirar as páginas de um livro antigo em um sebo? Essa é a leitora. Nunca resiste a cheirar as páginas, especialmente quando ficaram amarelas.

Ela é a garota que lê enquanto espera em um Café na rua. Se você espiar sua xícara, verá que a espuma do leite ainda flutua por sobre a bebida, porque ela está absorta. Perdida em um mundo criado pelo autor. Sente-se. Se quiser ela pode vê-lo de relance, porque a maior parte das garotas que leem não gostam de ser interrompidas. Pergunte se ela está gostando do livro.

Compre para ela outra xícara de café.
Diga o que realmente pensa sobre o Murakami. Descubra se ela foi além do primeiro capítulo da Irmandade. Entenda que, se ela diz que compreendeu o Ulisses de James Joyce, é só para parecer inteligente. Pergunte se ela gostaria ou gostaria de ser a Alice.

É fácil namorar uma garota que lê. Ofereça livros no aniversário dela, no Natal e em comemorações de namoro. Ofereça o dom das palavras na poesia, na música. Ofereça Neruda, Sexton Pound, cummings. Deixe que ela saiba que você entende que as palavras são amor. Entenda que ela sabe a diferença entre os livros e a realidade mas, juro por Deus, ela vai tentar fazer com que a vida se pareça um pouco como seu livro favorito. E se ela conseguir não será por sua causa.

É que ela tem que arriscar, de alguma forma.
Minta. Se ela compreender sintaxe, vai perceber a sua necessidade de mentir. Por trás das palavras existem outras coisas: motivação, valor, nuance, diálogo. E isto nunca será o fim do mundo.

Trate de desiludi-la. Porque uma garota que lê sabe que o fracasso leva sempre ao clímax. Essas garotas sabem que todas as coisas chegam ao fim. E que sempre se pode escrever uma continuação. E que você pode começar outra vez e de novo, e continuar a ser o herói. E que na vida é preciso haver um vilão ou dois.

Por que ter medo de tudo o que você não é? As garotas que leem sabem que as pessoas, tal como as personagens, evoluem. Exceto as da série Crepúsculo.

Se você encontrar uma garota que leia, é melhor mantê-la por perto. Quando encontrá-la acordada às duas da manhã, chorando e apertando um livro contra o peito, prepare uma xícara de chá e abrace-a. Você pode perdê-la por um par de horas, mas ela sempre vai voltar para você. E falará como se as personagens do livro fossem reais – até porque, durante algum tempo, são mesmo.

Você tem de se declarar a ela em um balão de ar quente. Ou durante um show de rock. Ou, casualmente, na próxima vez que ela estiver doente. Ou pelo Skype.

Você vai sorrir tanto que acabará por se perguntar por que é que o seu coração ainda não explodiu e espalhou sangue por todo o peito. Vocês escreverão a história das suas vidas, terão crianças com nomes estranhos e gostos mais estranhos ainda. Ela vai apresentar os seus filhos ao Gato do Chapéu [Cat in the Hat] e a Aslam, talvez no mesmo dia. Vão atravessar juntos os invernos de suas velhices, e ela recitará Keats, num sussurro, enquanto você sacode a neve das botas.

Namore uma garota que lê porque você merece. Merece uma garota que pode te dar a vida mais colorida que você puder imaginar. Se você só puder oferecer-lhe monotonia, horas requentadas e propostas meia-boca, então estará melhor sozinho. Mas se quiser o mundo, e outros mundos além, namore uma garota que lê.

Ou, melhor ainda, namore uma garota que escreve.”


Texto original: Date a girl who reads – Rosemary Urquico

Amadurecimento




Aprenda a gostar de você, a cuidar de você e, principalmente, a gostar de quem também gosta de você.

A idade vai chegando e, com o passar do tempo, nossas prioridades na vida vão mudando - a vida profissional, a monografia de final de curso, as contas a pagar. Mas uma coisa parece estar sempre presente - a busca pela felicidade com o amor da sua vida.

Desde pequenas ficamos nos perguntando "quando será que vai chegar?" E a cada nova paquera, vez ou outra nos pegamos na dúvida "será que é ele?". Como diz o meu pai: "nessa idade tudo é definitivo", pelo menos a gente achava que era. Cada namorado era o novo homem da sua vida. Faziam planos, escolhiam o nome dos filhos, o lugar da lua-de-mel e, de repente... PLAFT! Como num passe de mágica ele desaparecia, fazendo criar mais expectativa a respeito "do próximo".

Você percebe que cair na guerra quando se termina um namoro é muito natural, mas que já não dura mais de três meses. Agora, você procura melhor e começa a ser mais seletiva. Procura um cara formado, trabalhador, bem resolvido, inteligente, com aquele papo que a deixa sentada no bar o resto da noite.

Você procura por alguém que cuide de você quando está doente, que não reclame em trocar aquele churrasco dos amigos pelo aniversário da sua avó, que jogue "imagem e ação" e se divirta como uma criança, que sorria de felicidade quando te olha, mesmo quando está de short, camiseta e chinelo.

A liberdade, ficar sem compromisso, sair sem dar satisfação já não tem o mesmo valor que tinha antes. A gente inventa um monte de desculpas esfarrapadas mas continuamos com a procura incessante por uma pessoa legal, que nos complete e vice-versa.

Enquanto tivermos maquiagem e perfume, vamos à luta. E haja dinheiro para manter a presença em todos os eventos da cidade: churrasco, festinhas, boates na quinta-feira. Sem falar na diversidade que vai do Forró ao Beatles. Mas o melhor dessa parte é se divertir com as amigas, rir até doer a barriga, fazer aqueles passinhos bregas de antigamente e curtir o som. Olhar para o teto, cantar bem alto aquela música que você adora.

Com o tempo, você vai percebendo que para ser feliz com uma outra pessoa, você precisa, em primeiro lugar, não precisar dela. Percebe também que aquele cara que você ama (ou acha que ama), e que não quer nada com você, definitivamente não é o homem da sua vida.

Você aprende a gostar de você, a cuidar de você e, principalmente, a gostar de quem também gosta de você. O segredo é não correr atrás das borboletas - é cuidar do jardim para que elas venham até você.

No final das contas, você vai achar não quem você estava procurando, mas quem estava procurando por você!



Mario Quintana

PESSOA, por ele mesmo


Aquilo que, creio, produz em mim o sentimento profundo, em que vivo, de incongruência com os outros, e que a maioria pensa com a sensibilidade e eu sinto com o pensamento.

Para o homem vulgar, sentir é viver e pensar é saber viver. Para mim, pensar é viver e sentir não é mais que o alimento de pensar.

É curioso que, sendo escassa a minha capacidade de entusiasmo, ela é naturalmente mais solicitada pelos que se me opõem em temperamento do que pelos que são da minha espécie espiritual. A ninguém admiro, na literatura, mais que aos clássicos, que são a quem menos me assemelho. A ter que escolher, para leitura única, entre Chateaubriand e Vieira, escolheria Vieira sem necessidade de meditar.

Quanto mais diferente de mim alguém é, mais real me parece, porque menos depende da minha subjectividade. E é por isso que o meu estudo atento e constante é essa mesma humanidade vulgar que repugno e de quem disto. Amo-a porque a odeio. Gosto de vê-la porque detesto senti-la. A paisagem, tão admirável como quadro, é em geral incómoda como leito.


13-4-1930


Livro do Desassossego por Bernardo Soares.Vol.I. Fernando Pessoa.

Aos Casados




Aos casados há muito tempo 
aos que não casaram, 
aos que vão casar, 
aos que acabaram de casar, 
aos que pensam em se separar, 
...aos que acabaram de se separar, 
aos que pensam em voltar... 

Por mais que o poder e o dinheiro tenham conquistado 
uma ótima posição no ranking das virtudes, 
o amor ainda lidera com folga. 
Tudo o que todos querem é amar. 
Encontrar alguém que faça bater forte o coração 
e justifique loucuras. 
Que nos faça entrar em transe, cair de quatro, 
babar na gravata. 
Que nos faça revirar os olhos, rir à toa, 
cantarolar dentro de um ônibus lotado. 
Tem algum médico aí??? 
Depois que acaba esta paixão retumbante, 
sobra o que? 

O amor. 
Mas não o amor mistificado, 
que muitos julgam ter o poder de fazer levitar. 
O que sobra é o amor que todos conhecemos, 
o sentimento que temos por mãe, pai, irmão, filho. 
É tudo o mesmo amor, só que entre amantes existe sexo. 
Não existem vários tipos de amor, 
assim como não existem três tipos de saudades, 
quatro de ódio, seis espécies de inveja. 
O amor é único, como qualquer sentimento, 
seja ele destinado a familiares, ao cônjuge ou a Deus. 

A diferença é que, como entre marido 
e mulher não há laços de sangue, 
a sedução tem que ser ininterrupta. 
Por não haver nenhuma garantia de durabilidade, 
qualquer alteração no tom de voz nos fragiliza, 
e de cobrança em cobrança acabamos por sepultar
uma relação que poderia ser eterna. 
Casaram. Te amo prá lá, te amo prá cá. 
Lindo, mas insustentável. 
O sucesso de um casamento
exige mais do que declarações românticas. 
Entre duas pessoas que resolvem dividir o mesmo teto, 
tem que haver muito mais do que amor, 
e às vezes nem necessita de um amor tão intenso. 
É preciso que haja, antes de mais nada, respeito.
Agressões zero. Disposição para ouvir argumentos alheios. 
Alguma paciência... Amor, só, não basta. 

Não pode haver competição. Nem comparações.
Tem que ter jogo de cintura para acatar regras 
que não foram previamente combinadas. 
Tem que haver bom humor para enfrentar imprevistos, 
acessos de carência, infantilidades. 
Tem que saber levar. Amar, só, é pouco. 

Tem que haver inteligência. 
Um cérebro programado para enfrentar tensões pré-menstruais,
rejeições, demissões inesperadas, contas pra pagar. 
Tem que ter disciplina para educar filhos, 
dar exemplo, não gritar. Tem que ter um bom psiquiatra. 
Não adianta, apenas, amar. 
Entre casais que se unem visando à longevidade do matrimônio 
tem que haver um pouco de silêncio, amigos de infância, 
vida própria, um tempo pra cada um. 
Tem que haver confiança. 
Uma certa camaradagem, 
às vezes fingir que não viu, fazer de conta que não escutou. 
É preciso entender que união não significa, 
 necessariamente, fusão. 
E que amar, 'solamente', não basta. 

Entre homens e mulheres que acham que o amor é só poesia,
falta discernimento, pé no chão, racionalidade. 
Tem que saber que o amor pode ser bom, pode durar para sempre, 
mas que sozinho não dá conta do recado. 
O amor é grande mas não é dois. 
É preciso convocar uma turma de sentimentos 
para amparar esse amor que carrega o ônus da onipotência. 
O amor até pode nos bastar, mas ele próprio não se basta. 

Um bom amor aos que já têm!
Um bom encontro aos que procuram!
E felicidades a todos nós! 



Artur da Távola

03 fevereiro, 2012

Simplificando...

Posso pedir que enxugue as nossas lágrimas, 
que perpetue o nosso riso 
e não se esqueça nunca 
de aquecer os nossos dias.





Cláudio Gontijo

A cura



" Ainda existe! Sim: A cura. 
O amor é a candura que reaviva as dores obscuras. 
Há mal que amar não reconstrua? "









 Patty Vicensotti 

Quem gostou da Ideia